
Os elementos que movem carros elétricos, turbinas e chips de última geração viraram o novo campo de disputa entre China e Estados Unidos, e um investimento bilionário acaba de colocar o Brasil nesse tabuleiro.
Durante décadas, o petróleo foi o centro das disputas econômicas do mundo. Quem controlava reservas e rotas de produção tinha influência sobre indústrias inteiras e até sobre decisões estratégicas de outros países.
Uma nova disputa está tomando esse lugar, e ela começou a esquentar de verdade neste mês.
Em agosto de 2026, fornecedores chineses passaram a recusar o envio de terras raras críticas para empresas americanas, atingindo diretamente setores como aeroespacial, semicondutores, energia e dispositivos médicos. Segundo a Reuters, o movimento é uma retaliação chinesa a restrições impostas pelos Estados Unidos desde dezembro do ano anterior, e o resultado prático já aparece nos números: as exportações de ítrio para os EUA em 2026 somam cerca de metade do volume registrado em 2024.
Por trás dessa briga está um grupo de 17 elementos químicos que a maioria das pessoas nunca ouviu falar, mas que movem boa parte da economia do século XXI.
O Que São Terras Raras e Por Que Elas Viraram Indispensáveis
Apesar do nome, terras raras não são necessariamente difíceis de encontrar na natureza. O termo se refere a um grupo de 17 elementos químicos, entre eles neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, usados principalmente na fabricação de ímãs de altíssimo desempenho.

Esses ímãs estão em motores de carros elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos, sistemas de defesa e equipamentos de inteligência artificial. Um único carro elétrico pode usar de 1 a 2 quilos de terras raras só no motor, e uma turbina eólica offshore pode precisar de várias centenas de quilos. É uma característica peculiar desse mercado: uma quantidade pequena de minério pode ser indispensável para produtos que movimentam trilhões de dólares.
A questão não é só quem tem minério no subsolo. O verdadeiro poder está em quem controla toda a cadeia, da mina ao produto final. E é exatamente aí que a China constrói sua vantagem.
Como a China Assumiu o Controle da Cadeia
A China não dominou esse mercado só através da mineração. O país construiu, ao longo de décadas, uma capacidade enorme de separação, refino e fabricação de ímãs permanentes, as etapas mais caras e tecnicamente complexas do processo, e que exigem know-how industrial que poucos países desenvolveram.
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a China respondeu por cerca de 60% da mineração mundial de terras raras usadas em ímãs em 2024. No refino, a participação chegou a 91%. Na fabricação de ímãs permanentes, a 94%.
Parte dessa vantagem tem origem histórica: separar terras raras é um processo químico agressivo, que gera grande volume de resíduo tóxico e, em alguns casos, radioativo. Ao longo dos anos 1990 e 2000, Estados Unidos e outros países foram, aos poucos, transferindo essa etapa mais poluente da cadeia pra China, que aceitou pagar esse custo ambiental em troca de posição estratégica. Décadas depois, é justamente essa etapa que ficou mais difícil e mais cara de trazer de volta.
Isso é como ter petróleo no quintal sem ter refinaria: outros países até conseguem aumentar a extração do minério, mas não substituem da noite pro dia uma cadeia industrial que levou décadas para ser construída.
De Mineração a Arma Geopolítica
Em abril de 2025, a China anunciou controle de exportação sobre sete elementos de terras raras pesadas. O efeito foi imediato: montadoras nos Estados Unidos e na Europa tiveram dificuldade para obter ímãs, e algumas chegaram a reduzir a produção ou parar temporariamente linhas de montagem por falta de peça.

Em outubro do mesmo ano, novas medidas ampliaram ainda mais os controles, depois suspensas por um ano, embora a vulnerabilidade da cadeia tenha permanecido. E agora, em 2026, o episódio se repete: a nova onda de restrições, que já reduziu pela metade o volume de ítrio enviado aos EUA, mostra que essa arma segue sendo usada como moeda de troca em meio à guerra comercial entre as duas potências.
Do outro lado, Estados Unidos e União Europeia correm para reduzir a dependência. A União Europeia criou o Critical Raw Materials Act, com metas para ampliar mineração, processamento e reciclagem própria. Nos Estados Unidos, o Departamento de Defesa foi além da política industrial: em julho de 2025, investiu US$ 400 milhões na MP Materials, dona da mina de Mountain Pass, na Califórnia, e se tornou o maior acionista da empresa numa parceria pra acelerar a produção doméstica de ímãs. É a mesma lógica que, meses depois, levaria o governo americano a repetir a jogada fora de casa, dessa vez em solo brasileiro.
Mas construir uma mina leva anos, construir uma refinaria leva ainda mais, e por isso essa diversificação tende a ser lenta, mesmo com todo o dinheiro sendo direcionado a isso.
Por Que o Brasil Virou Peça Central Dessa Disputa
E é aqui que a história chega no Brasil.
O país detém cerca de 25% das reservas mundiais conhecidas de terras raras, um dos maiores volumes do planeta, atrás praticamente só da China. Os Estados Unidos já perceberam isso.

Em março de 2026, o governo americano, através da sua Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional (DFC), anunciou um aporte de US$ 565 milhões (cerca de R$ 3 bilhões) na mineradora Serra Verde, instalada em Minaçu, no interior de Goiás. O investimento inclui uma opção para os EUA adquirirem participação minoritária na empresa, que hoje é a única produtora em larga escala de terras raras pesadas críticas fora da Ásia.
O aporte faz parte do “Project Vault”, programa americano que prevê cerca de R$ 12 bilhões em minerais críticos ao redor do mundo. Antes dele, em outubro de 2024, fundos como Denham Capital e EMG, dos EUA, e Vision Blue, do Reino Unido, já haviam colocado US$ 150 milhões na mesma mineradora.
E Goiás não está sozinho. Em Ariquemes, Rondônia, o projeto Bom Futuro reaproveita cerca de 70 milhões de toneladas de rejeito acumulado em 25 anos de garimpo de cassiterita, extraindo daí terras raras e outros minerais estratégicos, agora sob controle majoritário da mineradora Canada Rare Earth.
Na prática, o Brasil deixou de ser apenas espectador dessa disputa entre China e Estados Unidos. Virou fornecedor estratégico cortejado pelas duas potências, o que já gera debate no país sobre soberania desses recursos.
O Que Isso Significa pra Economia e pros Seus Investimentos
Para quem acompanha o mercado financeiro, terras raras deixaram de ser assunto de nicho. Uma restrição de exportação pode pressionar preços de setores inteiros, um novo projeto de mineração pode mudar expectativas de oferta, e uma cadeia de processamento nascendo fora da China, inclusive aqui no Brasil, pode dar origem a empresas e setores industriais inteiros nos próximos anos.
O movimento lembra, guardadas as proporções, o que bancos centrais ao redor do mundo vêm fazendo com o ouro como reserva estratégica contra incerteza econômica — tema que já exploramos no nosso guia sobre como investir em ouro e proteger seu patrimônio, pra quem quiser entender esse outro lado da mesma lógica de proteção.
Essa disputa por minerais também caminha lado a lado com outra corrida que já cobrimos em Economia Global em 2026: EUA, China e a Corrida pela IA — a briga entre EUA e China por tecnologia e inteligência artificial, que segue o mesmo padrão de disputa por recursos estratégicos.
Perguntas frequentes sobre terras raras
Terras raras são realmente raras?
Não no sentido geológico. Elas existem em quantidade razoável na crosta terrestre. A raridade está em encontrá-las em concentração que compense extrair, e principalmente na capacidade industrial de separar e refinar esses elementos, hoje concentrada quase toda na China.
O Brasil pode se tornar um grande exportador de terras raras?
O potencial existe. O país tem cerca de 25% das reservas mundiais conhecidas, com projetos em Goiás e Rondônia já atraindo investimento estrangeiro. Mas transformar reserva em produção industrial de peso ainda depende de anos de investimento em mineração, refino e infraestrutura.

No século XX, poder econômico era sinônimo de petróleo. No século XXI, parte dele está escondido em elementos químicos que pouca gente sabe pronunciar, e agora uma fatia real dessa disputa passa pelo subsolo brasileiro.
Quem dominar a cadeia completa, da mina ao produto final, sai na frente. Acompanhar esse movimento com antecedência pode fazer diferença tanto pra quem pensa em investimentos quanto pra quem só quer entender pra onde a economia global está caminhando.
Quer continuar de olho nos bastidores da economia mundial e no que isso significa pro seu bolso? Continue acompanhando o Portal Radar Financeiro, e aproveite pra ler também nossos conteúdos sobre ouro e sobre a disputa tecnológica entre EUA e China, dois assuntos que conversam direto com essa matéria.



